Marina Silva dispensa apresentações.
Todos conhecem sua história, sua luta, sua trajetória política.
Então pensamos: se tantos já fizeram aquela entrevista "histórica"
com Marina, o que nós vamos fazer? A resposta: conversar com ela, saber
como vai a vida, a luta, o trabalho. Como dizia Drummond, "o tempo presente,
a vida presente". Marina é a maturidade que o Acre pôde alcançar.
Está no ponto mais elevado do sonho amazônico, de onde se pode ver
o mundo inteiro. Numa edição especial para Chico Mendes, essa conversa
não poderia faltar.
Entrevista: Antonio Alves e
Jorge Henrique Queiroz.
Você está
sendo chamada por aí de "herdeira política do Chico Mendes".
O que você acha disso?
Eu acho que o Chico
não tem herdeiro político. Herdeiro é alguém que fica
com o espólio de uma coisa que desapareceu. E as idéias do Chico,
que são a herança dele, continuam vivas através de muitas
pessoas. Eu sou uma dessas pessoas que continuaram a luta do Chico, e eu não
gosto dessa coisa que houve, quando o Chico morreu, de ficarem tentando achar
um sucessor, um herdeiro. Eu me sentia muito incomodada com isso. Eu acho que
o Chico era uma pessoa de carne e osso, com defeitos, com muitas qualidades e
quando ele era vivo muita gente só via os defeitos, depois que ele morreu
é que apareceram as qualidades. Eu me sinto feliz de ter visto as qualidades
antes dele morrer.
Ser apresentada como a "senadora
seringueira" ou a herdeira política de Chico Mendes é vantagem
ou prejuízo para a política que você quer fazer?
No
começo foi motivo de uma certa preocupação, porque eu achei
que queriam "jurunizar" a minha atuação política.
E é claro que eu não ia me submeter a isso, de ter uma atuação
política estereotipada, usando a minha origem para me promover politicamente.
Tenho muito respeito pela saga dos seringueiros, do meu pai, dos meus tios, dos
meus amigos, dos meus primos, das minhas irmãs, não vou querer me
promover politicamente com isso. Eu fiquei no seringal até os 16 anos,
aprendi a cortar seringa e tenho muito orgulho disso e de ainda saber fazer isso
hoje. Aprendi muitas outras coisas também: plantar feijão, ralar
macaxeira, fazer farinha, fazer tapioca, beijú, conheço uma varidade
muito grande de árvores da floresta, de fazer inveja a muita gente. Tudo
isso faz parte da minha história. Depois tem as coisas que eu aprendi fora
da floresta, quando comecei a estudar, fiz uma faculdade, me tomei uma professora.
Então eu tinha certeza de que tudo aconteceria naturalmente, que eu devia
trabalhar isso não de uma forma estereotipada. No final das contas, o fato
de ter essa vinculação com o trabalho de Chico Mendes é algo
que também ajuda, porque ele se tornou importante para o Acre, para a Amazônia,
pro Brasil e pro mundo. Ele se tornou uma referência com relação
à questão ambiental. Mas eu jamais me permitiria ficar usando o
nome do Chico para me promover. Eu quero ter competência pra me afirmar
a partir do meu trabalho, a partir mesmo da minha experiência vivida e das
coisas que eu aprendi, algumas até com o próprio Chico. Ele me respeitava
por isso e onde estiver, tenho certeza, continua me respeitando.
A
temática que você representa, com a qual você trabalha, não
é a temática central da República. Você não
acha que isso te coloca "à margem" do cenário político?
É,
infelizmente, os temas importantes pro Brasil estão à margem mesmo.
Porque o que está no centro é a fofoca, as picuinhas, a política
momentânea. Uma hora é a pasta cor de rosa, outra hora é o
grampo, outra hora é a meia furada do Femando Henrique, outra hora é
sei-lá o-quê. E com uma aborgem dessas, é claro que ficam
de lado problemas importantes como a questão do meio ambiente, do desenvolvimento
sustentável, de uma exploração correta dos recursos naturais
da Amazônia, de respeito e apoio às comunidades tradicionais para
que elas possam viver com saúde, com educação e com dignidade.
Isso parece que é uma coisa de visionários, de sonhadores, de loucos.
E com certeza essas coisas ficam à margem. Mas, eu na minha experiência,
tenho visto o seguinte: as coisas verdadeiras, justas e corretas, acabam se impondo.
A Amazônia, de alguma forma, se impõe. O governo é obrigado
a falar de Amazônia mesmo que não queira, porque existe um movimento
internacional muito forte que cobra do Brasil responsabilidade com a Amazônia
e, mesmo que seja apenas retórica, os seus ministros e assessores são
obrigados a falar de Amazônia. E a mentira tem pernas curtas. Quem quiser
pode falar de coisas bonitas lá fora, nos Estados Unidos, na Alemanha,
na França, onde quer que esteja, mas isso dura pouco tempo. Se as coisas
não mudarem, a própria comunidade internacional começa a
perceber que é uma coisa de fachada, mentirosa, e a pressão aumenta.
Mas a pressão mais importante, e nessa nós estamos devendo, é
a pressão interna. A Amazônia deve ter lideranças políticas
que se referenciem com sua verdadeira causa, deve ter governadores, prefeitos,
senadores, sindicalistas, seringueiros, enfim, gente que afirme sua vontade pro
Brasil, pro governo. Porque as pressões externas formam uma grande onda,
né? Começam fazendo um grande rebuliço, mas chegam na beira
da praia bem devagarzinho. Eu acho que quando ela sai de dentro pra fora tem muito
mais força. E eu me sinto em alguns momentos à margem. Mas eu sei
que o que a gente está fazendo é o certo. Pode não ser para
quem não pensa corretamente na sobrevivência no planeta, na nova
forma de se relacionar entre as pessoas, com a natureza, de buscar saídas
para milhões de pessoas que estão excluídas de qualquer possibilidade
de sobrevivência digna. Eu sei que esses valores acabarão se impondo,
ou eles se impõem ou a humanidade não tem futuro. E como eu acredito
no futuro da humanidade, penso que estou no centro, não na margem.
Você
não acha difícil colocar a Amazônia na pauta?
Não
é difícil, Porque o tema já se coloca para públicos
que solicitam, pessoas que, de alguma forma, estão com alguma sensibilidade
para a questão. E a Amazônia se impõe. De duas maneiras, completamente
opostas. Uma é pela sensibilidade, pela preocupação que é
verdadeira. Outra pela hipocrisia: ninguém assume dizer que é contra
a Amazônia. Quem é que tem coragem de dizer que é a favor
de devastar a floresta amazônica? Ninguém. Desde os empresários
da mineração, os madeireiros, todos se dizem dispostos a dialogar.
O difícil é estabelecer em que nível a nossa intervenção
tem um retorno verdadeiro, que possa provar mudanças de comportamento,
de atitude. Agora, a discussão do tema fica mais difícil porque,
além de sensibilizar para o problema, você tem que apresentar as
saídas. Hoje ninguém quer viver mais de pregação.
Eu não quero apenas falar dos problemas da Amazônia, da sua importância,
das suas reivindicações. Eu quero mostrar alternativas, dizer como
eu acho que essa riqueza pode ser utilizada em benefício das pessoas estão
aqui. Eu acho, que o futuro da Amazônia seria viabilizá-la economicamente,
socialmente, culturalmente, a partir das referências que nós já
construímos. Foi com muita alegria que eu fiquei sabendo, na Universidade
de Chicago, que a maior biodiversidade do mundo, a área de maior quantidade
de plantas, de animais, de insetos, de tudo, é o vale do Rio Juruá.
Antes achavam que era uma região da Mata Atlântica, na Bahia. Só
que no caso da Mata Atlântica, é uma área fechada, sem presença
humana. Eu acho que isso é uma prova de que a nossa população,
aqui no Acre, produziu um conhecimento capaz de compatibilizar a sobrevivência
humana, que necessita dos recursos naturais, com a preservação.
Você
acha que existe um modo de ser da pessoa amazônica, diferente de outras?
Você se sente assim?
Olha, eu acho que existe
uma maneira de ser das pessoas que vivem na Amazônia. Isto é um componente
histórico, as pessoas que ficaram aqui, que vivem aqui, elas encontraram
uma floresta fantástica, misteriosa, cheia de árvores, de bichos,
de insetos, uma série de coisas, e se misturaram com isso, criaram uma
força interior semelhante à força da própria floresta,
muito interessante, muito diferente do resto do país. Enquanto o resto
do país faz questão de se expor, aparecer, se escancarar, a Amazônia
parece fazer questão de se esconder, se fechar, até porque os tesouros
não ficam no meio da rua, os tesouros geralmente estão escondidos
e a Amazônia é um tesouro da humanidade. Mas a Amazônia tem
as suas especificidades. O amazônico acreano é completamente diferente
do paraense, do amazônico do Amapá é diferente do de Roraima,
e assim vai. Existem várias Amazônias. Mesmo dentro de cada Estado.
No Acre, por exemplo, existe uma diferença entre o vale do Acre e o vale
do Juruá, na forma de ser, de agir e de se relacionar das pessoas. Eu me
sinto amazônica, mas a minha interioridade amazônica, de alma, latente,
ontológica, é essencialmente acreana.
Isso
dificulta o entendimento, a linguagem? O que você diz é realmente
entendido nos outros lugares?
Eu acho que tem uma
coisa de sintonia. Muitas vezes, quando eu vejo outras pessoas, de outras regiões
e até de outros países falando de Amazônia, tenho a sensação
de que é alguém fraterno, solidário, que racionalmente entende
a nossa importância. E isso é muito bom, é muito interessante
pra nossa luta. Por outro lado, é como se fosse algo pela metade. E eu
acho que quando nós mesmo falamos a sintonia é maior. As pessoas
ficam sensibilizadas, até emocionadas com o que a gente diz. E são
coisas muito simples. Eu não sou cientista, não conheço tecnicamente
a floresta, conheço empiricamente como qualquer cidadão, e então
eu acho que essa coisa de falar com o coração, de estar conectado
com a realidade, com a natureza da Amazônia, isso tem uma força,
um poder muito grande de transmissão, e tem crédito por causa da
autencidade. Eu sempre que chego de vôo de Cruzeiro do Sul, e vejo aquele
mar verde de floresta, eu sinto um orgulho imenso de ser daqui. E quando eu sinto
que isso pode acabar, e essa terra toda ficar careca, boa parte dela já
está careca em Rondônia, me dá uma tristeza muito grande.
Então, quando estou falando da Amazônia eu me recordo disso e acho
que consigo transmitir essa força interior que tem um apelo muito forte
nas pessoas.
Você acha que a própria
população aqui do Acre entende isso?
Infelizmente
nem todo mundo entende. É como se o Acre vivesse duas realidades. Tem um
núcleo concentrado de pensamento, de forças, de idéias, de
pessoas que defendem o meio ambiente, a floresta, uma forma diferente de desenvolver
este Estado. Mas uma grande parcela fica numa relação difusa com
essas pessoas. Tem até aqueles que acham que essas pessoas defendem o atraso,
que são contra o desenvolvimento, essas coisas. E a maioria fica como um
pêndulo entre esses dois pólos. Muita gente não pode ver os
índios e seringueiros sendo massacrados, mas ao mesmo tempo fica encantada
com a possibilidade do progresso, como se isso aqui fosse virar São Paulo.
O que existe são dois núcleos, com muito poder e força. Um
que entende a floresta como sinônimo de atraso, como ausência de progresso,
que precisa ser derrubada para poder brotar a civilização, e outro
que entende que a maneira mais nobre de civilização é conseguir
manter este património que Deus nos deu. Essas duas forças são
muito poderosas, e eu espero que a população consiga pender para
o lado certo, que é de viver com essa riqueza que Deus nos deu sem destruí-Ia.
Como
é viver em Brasília?
Uma vez me perguntaram
o que que eu sentia em Brasília. Aí eu disse: sinto saudade do Acre.
Você convive alí com boa parte das coisas da política. Muitas
decisões, do que é importante e até do que não é
importante, estão acontecendo ali. E em lugares muito determinados: a Câmara,
o Senado, o Palácio do Governo ou algum ministério. O núcleo
do poder está alí, é uma máquina que já está
funcionando por si mesma. Nós somos aqueles que ficam tentando acelerar
a roda naquilo que nós gostaríamos que acontecesse. Quando o Graziano
entrou no Incra a gente correu, todo mundo, para botar um pouquinho de graxa,
pra ver se a roda rodava a nosso favor. Aí veio o grampo do Sivam, o Graziano
caiu, a direita põe pedra e areia na engrenagem da reforma agrária
e ela pára de rodar. E vai por graxa em outras coisas, no dinheiro pros
bancos, sei lá o quê. Então quem não é do sistema,
não tá na funcionalidade do sistema, fica fazendo um monte de coisas
pra tentar fazer com que o movimento venha pelo menos um pouquinho daquilo em
que acredita.
Influindo no andamento da roda...
Exatamente.
Enquanto que os demais, não. O Antonio Carlos Magalhães, por exemplo,
se quiser, não precisa ir nem no gabinete dele. Fica o dia inteiro em casa
conversando, dando as ordens não sei pra quem, aí é só
chegar de tarde e fazer um pronunciamento que vai ter grande repercussão.
E assim para os que estão dentro do movimento natural do sistema. Nós,
não. Nós temos que fazer milhões de coisas pra tentar puxar
um pouquinho daquilo que gostaríamos. Eu tava vendo o resumo da minha agenda
de 95. Foram 109 audiências e compromissos considerados importantes, sem
falar dos trabalhos de comissão, de plenário, de reuniões,
de pessoas que eu recebi no Gabinete, de pessoas que eu recebi no corredor...
Agora vamos verificar, na ponta do lápis, o que rendeu de toda essa trabalheira.
Bem, é claro que a gente conseguiu ampliar os recursos do FNO, está
conseguindo 3 milhões pro extrativismo, 3 milhões para beneficiamento
de borracha no Acre e mais 7 milhões para a Amazônia toda... enfim,
algumas coisas dessa natureza. Quer dizer: são muitas coisas que você
faz pra poder o vento soprar pelo menos um pouquinho a favor das coisas que você
defende. Então Brasília tem essa característica e você
vive isso. Por outro lado, tem também o problema da própria relação
com a cidade, da falta de identificação. Eu passo todo dia pelo
mesmo caminho, é uma coisa monótona, sabe? Não sei se isso
acontece com todos os parlamentares, até porque eu não tenho uma
vida de sair pra restaurantes ou bares, mas são sempre coisas muito determinadas.
É o trabalho da comissão, é o parecer do projeto, então
você não vive um cotidiano de coisas comuns. E isso cansa. É
estranho viver num lugar onde você não consegue, de alguma forma,
ter uma historicidade com ele, uma identidade. Talvez, nos próximos sete
anos eu até consiga construir essa identidade. Mas, com todo respeito que
eu tenho pelos brasilienses, eu me identifico mesmo é em andar numa cidade
que eu sei que agora é uma farmácia, mas que antigamente era o "Girau",
que eu sei que antigamente a Pernambucana ficava lá onde fica aquela loja,
é ensinar uma rua e o nome da rua ser menos importante do que o do dono
do bar que tem na rua, que a gente dá ele como referência, essas
coisas assim. Eu acho que isso é típico de gente cabocla.
Como
é que essa identidade cultural influi na tua maneira de fazer política?
Influi
de uma forma muito boa, porque eu sei que tenho uma referência. As pessoas
têm respeito por mim, mas eu não sou a instituição
senadora Marina. Acima de tudo eu sou uma pessoa frágil, com problernas
de saúde, e eu não escondo isso, não tento dissimular isso.
Eu sou uma pessoa apaixonada pelo que eu acredito, especialmente em relação
à Amazônia, ao índio, ao seringueiro, ao meio ambiente. Mas
a minha paixão não me deixa irracional. Então eu converso
com as outras pessoas, até mesmo com as que são contra as minhas
idéias. Há algum tempo, graças a Deus, eu deixei de fazer
uma coisa que me agride muito, que é essa coisa de sempre ir pro conflito.
Dizem que política é a arte do conflito, mas eu acho possível
manter o conflito apenas no nível das minhas idéias. Além
do mais, a minha própria presença já é um conflito,
né? Porque eu sou filha de seringueiro, ex-seringueira (se duvidarem eu
não tenho aonde cair morta), então é um conflito evidente,
a minha existência. Mas é um conflito que não agride as pessoas.
Eu não gosto de agredir as pessoas. Então isso é algo que
eu aprendi recentemente, há uns quatro anos, quando eu fiquei muito doente,
e acho que isso foi uma grande contribuição na minha vida. Eu adoeceria
de novo para ficar como eu fiquei. E o fato de ter referências culturais
fortes é muito bom. Ajuda até a dar referência pros outros.
Quando eu falo de seringueiros e de índios, alguém me faz um aparte
dizendo: "ah, eu sou usineiro" ou então "eu sou latifundiàrio
mas eu respeito o pensamento de vossa excelência". Quer dizer, as pessoas
começam a se referenciar também, buscar suas origens. E, acima de
tudo, começam a tratar as coisas com vida, com realidade mesmo. Eu acho
que a política tenta dotar as pessoas de uma falsa idéia de si mesmas.
O político passa a acreditar nessa falsa idéia de si mesmo e quer
que a população acredite. Quer que pensem que sabe de tudo, que
tem resposta pra tudo, que é capaz de tudo. Na política você
é capaz de pouca coisa, embora possa contribuir muito. E ninguém
tem a obrigação de saber tudo, nem ter resposta pra tudo. E nem
pode, falar do que não sabe, porque é falso, é charlatanismo.
Quando você fala das coisas que você sabe, que você tem crédito,
você tem autoridade. E uma das coisas que está faltando no Brasil
é autoridade. Não a autoridade que se impõe pela posição,
mas a autoridade que se afirma pela condição.
De
qualquer forma, ser senadora é ter um poder muito grande. Até nas
questões mais simples: você tem um motorista que te espera, tem pessoas
para cumprir tuas determinações. Como é trabalhar com o poder?
Eu
acho que as mulheres em geral têm muita dificuldade pra lidar com o poder.
E eu tenho mais dificuldade ainda. Primeiro porque não acredito em nada
que seja verticalizado, que você manda e as pessoas obedecem. Eu acredito
numa relação horizontalizada, onde você é parte do
todo que a gente quer construir. Então, nesse sentido, eu tenho dificuldade
de lidar com essa coisa do poder. Dizem que as pessoas que têm essa dificuldade
são alérgicas. Pelo menos para mim é verdade, eu sou hiper-alérgica.
Tem alguns espisódios interessantes. O Jackson é o meu motorista.
Não do Senado, a gente paga pra ele, porque não conseguimos um motorista
do Senado. Logo no começo eu andava no banco da frente, normal. Daí
ele disse: "Senadora, a senhora não pode andar no banco da frente,
assim, porque a senhora é senadora e eu sou motorista. Não fica
bem". Aí eu fiquei um pouco resistente, né? Mas depois eu digo:
bem, ele é motorista, deve saber o que está dizendo. Se ele diz
que não fica bem, então não fica mesmo. Então eu vou
pro banco de trás. Mas... é uma coisa meio estranha, porque te cobram
algumas coisas: o padrão, a forma. Eu também não quero uma
simplicidade piegas, humildezinha, no meu canto. Não é isso. Eu
acho que você consegue ser autoridade pela sua condução, até
pela forma respeitosa, a tentativa de ter uma relação horizontal
com as pessoas te dá uma certa autoridade. Talvez eu exerça minha
autoridade pela simplicidade. E essa posição de senadora é
claro que impõe respeito. Eu, graças a Deus, consegui um respeito
muito grande. Tanto dos senadores, quanto das autoridades ligadas ao governo e
das pessoas em geral. Por exemplo, dar autógrafo no aeroporto de São
Paulo, do Rio, de Brasilia, talvez seja privilégio de poucos políticos.
É algo que me gratifica, mas que em nenhum momento me deixa vaidosa. Um
dia desses eu ia andando pelo corredor, e eu estava indo sozinha, aí uma
funcionária do Senado me chamou e me acompanhou, e perguntou o seguinte:
"senadora, a senhora tem a dimensão de quem a senhora é?".
Eu fiquei, assim meio assustada e falei: acho que sim. Aí ela falou: "sabe,
a senhora é uma pessoa tão importante, mas parece que não
sabe disso, a senhora anda assim..." Aí eu fiquei em dúvida,
se era sério ou brincadeira, mas fiquei feliz. E espero que eu nunca fique
tão senhora de mim em relação às coisas, porque a
condição de' senadora passa mas a minha condição humana,
esta sim, é a autoridade que eu quero construir em mim.
Será
que passa mesmo? Você vislumbra sua vida agora sem a política? Pessoas
como você e o Jorge Viana talvez estejam num caminho sem volta. Você
imagina voltar a ser professora, mãe de família, na vida pacata
de Rio Branco?
Bem, tem aquela velha história:
o futuro a Deus pertence. Mas eu tenho um desafio pra mim também. Eu só
fico na política se eu achar que tenho alguma contribuição
a dar. Por exemplo, eu não seria candidata à reeleição
como vereadora. Eu já dei minha contribuição como vereadora.
Tem milhares de pessoas, gente mais nova do que eu, gente que está aflorando
na política, que pode ser vereador do PT. Então, o que que vai fazer
a Marina, com 37 anos, que já foi vereadora, querer ser vereadora de novo,
tomar o lugar de alguém que pode botar os pés na estrada e correr
esses barrancos aí por aí afora? Eu sei que tem pessoas que conseguem
ser 20, 30 anos, um deputado. Mas acho que chega um ponto em que passa a ser um
negócio dele, e não um negócio da sociedade. É pelo
interesse dele e não pela contribuição que ele pode dar.
Se, porventura, realmente for legítima uma contribuição que
eu venha a dar numa determinada função política, aí
sim. Agora, se for porque eu não quero mais encarar minha vida de professora,
ou a minha vida de pessoa comum, porque eu tenho que manter essa situação
de estar sempre na crista da onda, de ter sempre o poder pra, sei lá, isso
eu não quero.
Você não quer
fazer política apenas porque não consegue viver sem política.
Exatamente.
É claro que a política é uma dimensão fundamental
na minha vida. Mas mesmo sem ser senadora, deputada ou vereadora, eu estarei na
política. Estarei fazendo as coisas em que acredito, à minha maneira.
É claro que as pessoas vão achar que isso é muito pouco,
não vão entender, assim como não entenderam porque o Lula
não quis mais ser presidente do PT, uma decisão dele que eu achei
muito correta e legítima. Mas eu tenho que buscar opções
para a minha vida. Estou pensando até em fazer mestrado no ano que vem.
Posso me arrebentar, mas eu vou fazer ao menos uma matéria. Estou decidindo
se é Antropologia, ou se é Psicologia Social. O pessoal do Departamento
de Antropologia está tentando me convencer que Antropologia é muito
melhor e o pessoal do Departamento de Psicologia está fazendo o mesmo.
Eu vou decidir por mim mesma. Vou tratar de me reelaborar, me reprocessar, até
porque ninguém é cacimba de areia, que quanto mais tira, mais tem.
A gente se esgota, vai ficando repetitivo e, com todo respeito aos velhos políticos,
eu não quero chegar aos 60, 70 anos como certos caciques da política
acreana. A velha Marina, nhen, nhen, nhen, vote em mim...
Olhando
o rumo que as coisas estão tomando, você tem mais esperanças
no futuro ou mais temores e preocupações?
Eu
confesso que tenho medo, desde o plano mais geral até o local. Até
porque os problemas gerais sempre afetaram o Acre, desde o início. No século
passado, a economia do Acre já se relacionava com o capital internacional.
E agora se dá o mesmo: não há como ficar de fora do chamado
processo de globalização que está em curso. E o meu grande
medo é porque as forças que produzem riquezas, que geram valor,
que movimentam a roda dentada da economia mundial, estão caminhando numa
tendência de descartar bilhões de pessoas no planeta todo. O Brasil,
por exemplo, existe para aqueles 30 milhões que tem alguma condição
social e econômica. O resto da população, os outros 120 milhões,
é como se fosse descartável. Eu estive num seminário com
economistas brasileiros em Chicago e vi isso claramente. Eles falavam aos investidores
e banqueiros internacionais com discursos totalmente referenciados nesses 30 milhões,
os outros é como se não existissem. E eu ficava pensando: "meu
Deus, e eu aqui falando de índios e seringueiros, então eu tenho
uma grande preocupação com esse futuro ao qual parece estar destinada
apenas uma minoria da população do planeta. É uma coisa que
me move, a luta contra isso. Nos dias de hoje já não existe mais
uma utopia que mobilize. Até os partidos de esquerda se inspiram ainda
em ideais de igualdade e liberdade herdados do socialismo, que foi uma grande
contribuição à evolução da humanidade, mas
não têm mais um projeto de sociedade. Então a maior esperança
passa a ser a de conseguir evitar essa grande exclusão social planetária.
Alguém disse recentemente que a utopia dos nossos dias é a sustentabilidade.
Eu concordo plenamente. A nossa utopia hoje é conseguir prolongar os nossos
dias neste planeta.
Mas isso não é
um pouco triste? Quer dizer, todo o nosso sonho hoje consiste apenas em sobreviver?
Pois
é. Infelizmente, o rumo que a humanidade tomou nos últimos tempos
nos levou a essa situação. Tantas coisas erradas foram feitas que
agora a humanidade vai ter que dedicar uma grande parte de seu tempo e de sua
capacidade criativa para tentar consertar, reverter. Porque se continuar nesse
rumo, não haverá futuro. Com toda a capacidade técnica e
científica acumulada, com toda a nossa prepotente inteligência, nós
fomos capazes de chegar a esse ponto, de ter que utilizar toda a inteligência
para reverter o processo que nós criamos. Aí é que eu fico
orgulhosa de ser da Amazônia. Primeiro, porque nossa parte nesses erros
é pequena. Segundo, porque aqui o dever ainda é possível.
O dever é a Amazônia. Se as outras partes do mundo tem que reverter
o que foi feito, aqui nós ainda estamos começando, podemos fazer
certo. Podemos até ser referência para a humanidade, mostrando que
é possível trabalhar de forma correta, sem ter que depois perder
tempo refazendo ou desfazendo o que foi feito.
*Senadora reeleita pelo PT/AC, ocupando o cargo
de Ministra do Meio Ambiente em 2003.
** Publicado na Revista "n'ativa" nº4 em dezembro
de 1995
A memória da luta de Chico Mendes continua viva em cada ação que respeita a floresta e seus moradores e a cada semente plantada. Assim ele revive na cabeça da juventude que se preocupa com a qualidade de vida do planeta.
A semana Chico Mendes 2007 está integrada ao ano Chico Mendes, que em 2008 marca os 20 anos do seu assassinato. Durante o ano haverá diversos eventos.
Vamos continuar a luta para manter viva a memória do Chico! Clique aqui para a programação da semana Chico Mendes 2007 em Rio Branco, Xapuri e Brasiléia. (arquivo pdf)
Publicado por:
em Dec 07, 07 | 7:22 pm
30 de Mar , 2005
Medalha Chico Mendes de Resistência
Criada, em 1988, por iniciativa do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, a Medalha Chico Mendes de Resistência foi pensada quando o Exército, lembrando os vinte anos do golpe militar de 1964, homenageou com a Medalha do Pacificador, notórios elementos ligados ao aparato de repressão. Estas homenagens realizaram-se no DOI-CODI/RJ, local famoso pelas torturas e assassinatos ocorridos durante os chamados anos de chumbo.
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em Mar 30, 05 | 12:31 pm
13 de Dec , 2004
Chico Mendes na melhor idade
Elson Martins
O líder seringueiro, sindicalista e ativista
ambiental Francisco Alves Mendes Filho,
o Chico Mendes, completaria 60 anos de
idade no próximo dia 15.
Foi assassinado, entretanto, aos 44,
em sua casa na pequena cidade
de Xapuri, no Acre, no dia 22 de
dezembro de 1988.
Sua morte deixou muita saudade,
indignação e pranto, mas repercutiu
em defesa da Amazônia
e dos povos da floresta.
No dia 15 de dezembro de 1944 nasceu em
um seringal de Xapuri, no Acre, uma criança
que quarenta anos depois teve seu nome
conhecido e reconhecido em todo
o planeta Terra.
Neste fim de ano de 2004, Francisco Alves
Mendes Filho, o CHICO MENDES,
completaria sua melhor idade...
Mas apagaram seus olhos, antes que
pudesse ver e festejar o bom resultado
da luta que liderou.
Antes de ir, porém, ele deixou escrita
uma bela mensagem para os jovens do
presente e do futuro.
A cidade de Xapuri reencontra-se com sua identidade e se transforma sem perder substância. Foi a idéia que passou às pessoas que a visitaram na semana passada, durante a programação dos 15 anos da morte do líder seringueiro Chico Mendes.
Leia a integra do artigo do Jornalista Elson Martins clicando no ícone “Ler Notícias”.
Lançamento da vinheta da Campanha Contra a Biopirataria
Foi lançada dia 16 de dezembro, no Teatro Hélio Melo em Rio Branco (AC) a vinheta da Campanha Contra a Biopirataria “Cupuaçu é Nosso”. O Evento fez parte da programação da Semana Chico Mendes e teve início às 19:00h com uma Mesa Redonda com tema “Diálogo dos Saberes: Ciência e Tradição na Floresta”.
A página da Internet da Agência Brasil ( www.radiobras.gov.br )
setor de "Especiais", disponibiliza diversas sonoras de entrevistas
realizadas com pessoas ligadas a Chico Mendes, que estão sendo apresentadas
nos programas Revista Amazônia e Sons da Amazônia, numa produção de Cleide
de Oliveira e condução de Eduardo Mamcasz, os dois da Rádio Nacional da
Amazônia.
A Prefeitura Municipal de Porto Alegre promove de 13 a 21 de dezembro, a Semana Chico Mendes. O evento ocorrerá em comemoração ao aniversário de doze anos do parque e lembrará os 15 anos sem Chico Mendes.
O Parque Chico Mendes está localizado na zona norte de Porto Alegre, Rua Irmão Ildelfonso Luis 240, entre os bairros Jardim Leopoldina e Chácara da Fumaça, ocupando uma área de 24,7 hectares. Foi inaugurado no dia 21 de dezembro de 1991, em referência à data da morte de Chico Mendes, ocorrida no dia 22 de dezembro de 1988.
O Comitê Chico Mendes e outras entidades promovem entre os dias 15 e 22 de dezembro a Semana Chico Mendes com eventos em Rio Branco e Xapuri, no Acre. Acompanhe a programação em notícias.
>> ler noticia...
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em Dec 05, 03 | 11:01 am
30 de Sep , 2003
Conferência Estadual do Meio Ambiente
Acontecerá nos próximos dias 13 e 14 de outubro, no Teatrão, em Rio Branco, a Conferência Estadual do Meio Ambiente, preparatória, inclusive com a escolha de delegados, para a Conferência Nacional do Meio Ambiente, que acontecerá no final de novembro, em Brasília.
Para o encontro que acontecerá em Rio Branco está prevista a vinda da Ministra Marina Silva e de alguns de seus assessores diretos.
A organização da Conferência está por conta do IBAMA/AC, onde podem ser obtidas maiores informações.