Jamais vou esquecer aquele
dia. Muitas vezes fico pensando e tudo parece um filme. Fecho os olhos e vejo
o Nacional de Medellin e o Grêmio de Porto Alegre disputando a final da
Libertadores e eu lá no meio daquele estádio lotado. Mas este já
é quase o final do filme. Vou voltar a fita, senão perde a graça.
<<. PLAY: madrugada. Começo, já nas primeiras horas do dia,
um dos mais terríveis combates. Luto contra três: o computador, o
sono e um monstro chamado "Estudo de Viabilidade Política do Plano
Decenal de Educação de Rio Branco", tema que escolhi para o
meu projeto de curso. Pela manhã, com o gosto da vitória na boca,
corro para a Universidade e apresento o trabalho como quem está a poucas
braçadas da praia. Logo seria a glória, a redenção,
o descanso merecido dos justos: um banho e uma cama. Os organizadores do Curso
haviam preparado uma missa de ação de graças pela conclusão
dos trabalhos, mas eu já tinha decidido agradecer a Deus pessoalmente,
em data ainda incerta. Meu desejo era bater em retirada o mais rápido possível.
Além do banho e da soneca, eu queria tomar o rumo do estádio para
fechar o dia arrebentando. Mal terminara de montar este fabuloso plano quando
uma velha e bondosa Madre me pediu que levasse as oferendas; até o altar
durante a missa. Mais que depressa abri a boca para dizer Iarnento, não
sou católico". Mas fechei a boca dizendo: "con mucho gusto, Madre".
Nem sei porque, não fiquei aborrecido por mais esta traição
dos meus sentidos. A missa só começou depois de uma hora e levou
outra para terminar. Foi super bonita, as pessoas cantavam agradavelmente bem,
mas eu estava já pelas tabelas de cansaço. Meu corpo era um formigamento
só, dos pés à cabeça. Há mais de 24 horas no
ar, eu começava a viajar nas palavras do Padre, montando um mosaico de
realismo tão fantástico que só mesmo estando na terra de
Garcia Marquez. Quando terminou, despedi-me rápido dos colegas, cumprimentei
a Madre pela bela celebração e catei um táxi que me levou
voando para o estádio, sem banho nem soneca. E, finalmente, estava lá.
Só faltava entrar. Meia hora depois consegui ultrapassar a barreira militar
que educadamente revistava a todos e coloquei os pés na arquibancada. O
fato do estádio ser na Colômbia e o jogo no Brasil não me
incomodava tanto, só não me sentia à vontade em ser o único
brasileiro entre 10 mil colombianos que vaiavam o Grêmio diante de dois
enormes telões. Sentei num canto e sofri calado por noventa minutos a possibilidade
de ser traído por algum gesto que revelasse simpatia por aqueles brasileiros
que surravam o valente Nacional de Medellín, apesar do inesquecível
goleiro colombiano. No final, Grêmio 3, Nacional 1. Ufa! Agora sim.
Era só esperar mais um pouco para começar o show, razão de
ter enfrentado todo aquele estrupício. Eu estava há um mês
na pequena cidade de Manizales. Tinha adorado o povo colombiano que, diferente
da imagem que fazemos, é muito mais solidário e educado que nós.
Mesmo assim havia sido um mês difícil. Todos os dias tinha que explicar
aos colegas de toda a América Latina e Caribe que eu não conhecia
os jogadores de futebol de que eles falavam e que também não fazia
o menor empenho de passar o resto da vida a escutar um batuque que eles acreditam
ser samba. Acho que para qualquer um é difícil entender o que é
ser acreano, mas para eles deve ser um pouco mais complicado. Deixa pra lá.
Eu estava morto de saudades da minha família e aquele show seria uma boa
despedida daquela linda ciudad encravada nos Andes. Hora e meia mais tarde as
luzes se apagaram. Era o show. No palco a banda mexicana de rock Maná,
uma espécie de Titãs de língua espanhola. Incendiaram o estádio
já na primeira música e eu, que de tão cansado já
tinha a sensação da inexistência, passei a ser tomado por
uma onda de felicidade. Eles já não eram os torcedores do Nacional
que imaginei capazes de comer meu fígado. Mais pareciam anjos. Um casal
na minha frente percebeu que eu era brasileiro e estava desenturmado, riu e me
ofereceu uma dose do Ron Medellin. "Gracias", disse, já virando
a pequena garrafa. Naquela altura tudo para mim era festa. Mas, de repente, os
instrumentos calaram e o silêncio engoliu o estádio. O vocalista
do grupo, com uma voz de navalha, começou a cortar o silêncio em
pequenas fatias. Disse que oferecia a próxima música à memória
de um brasileiro que havia sido assassinado estupidamente por defender a floresta
amazônica. E começou a cantar na penumbra. Lentamente.
"A
Chico Mendes lo mataron Era un defensor y un angel de toda la Amazonia
El murio a sangre fria La selva se ahora en llanto Un angel murio Un angel
se fue Se fue volando en madrugada Cuando los angeles lloran Cuando los angeles
lloran, llovera..."
Foi muito estranho presenciar aquilo.
Tudo até então tinha sido estranho pra mim. Em um mês, aquela
era a primeira vez que me deparava com uma referência familiar. A música
rolou não sei por quanto tempo, mas o suficiente para eu rever o Chico.
Construíram tantos Chicos estranhos que há anos eu já não
lembrava qual era o verdadeiro. Mas naquele dia, na solidão, tive a oportunidade
de reencontrar o amigo, e lembrar de um tempo deliciosamente besta. Enquanto a
multidão cantava com o Maná, eu tomei o rumo de Xapuri, viajando
no tempo. A Primeira parada foi no final de 85. Tinham aberto as urnas das eleições
para a Prefeitura. Mais uma vez tínhamos perdido feio. O mundo daria ao
Chico muitas medalhas, mas Xapuri lhe reservaria o rabagésimo lugar de
uma eleição tacanha. O PMDB despejou toda sua grana num sujeito
medíocre que o tempo já se encarregou de limar. Eu sabia de tudo
aquilo, mas não me convencia. Estava arrasado e queria voltar correndo
para Rio Branco. Mas o Chico parecia não se importar tanto com a derrota.
Muito menos com a minha pressa de militante. Conversava com um, despachava outro
e animava um terceiro. Aquela lembrança era tão real que parecia
que eu estava ali, vendo o Chico, com aquele jeitão bonachão, e
a mim mesmo, dez anos mais novo, Dez anos mais atrevido. Dez anos mais menino.
Naquele dia o Chico me enrolou legal para que eu desse carona pra Deus e o mundo
e mais meia dúzia de companheiros da Estrada Velha, num jipe velho do PT.
Acho que lembrei daquela época porque foi um outro mês que passei
longe de casa e de todas as minhas pendências. Foi também outro mês
de curso. E o Chico foi também um outro professor. Eu tinha saído
da Universidade há um ano. Acho que queria ser eu o professor. De volta
ao estádio, vi que a multidão, de pé, ainda cantava. O estádio
vinha abaixo. Eu sentei. Se alguém visse que meus olhos estavam nadando
não ia entender nada. Foi quando lembrei da primeira lição:
seringueiro que é seringueiro sabe falar sim dizendo não. "Bobo",
pensei, "como pude acreditar que eles falavam com a palavra?". Voltei
ao primeiro encontro com o Chico. Pesquisa universitária, eu entrando pela
primeira vez na mata para falar com seringueiros, acompanhado de gente do curso
de História, e o Chico nos contando com ar muito sério a história
de uma caçada. Ele armou a rede na espera. Quando apareceu um veado, preparou-se
para atirar. Mas o veado foi crescendo, crescendo, até ficar do tamanho
da árvore e ele largou a espingarda e saiu correndo apavorado. Disse isso
sem nenhuma intenção de nos impressionar. Se quisesse aparecer teria
tentado nos enrolar com alguma conversa política. Ele acreditava mesmo
naquilo e eu nem acreditava que uma pessoa adulta e normal pudesse acreditar em
coisas assim. Hoje já nem sei se algum dia na vida fui mesmo rnaterialista.
O Chico eu sei que não foi. A música ainda rolava. Aproveitei para
ficar mais um pouco. Não pisava em Xapuri desde as últimas tentativas
de conciliar quem estava afim de brigar. Tomado por uma saudade imensa, parei
em frente ao Sindicato. Tinha pouca gente por ali. Acho que estávamos em
83 ou 84. Era noite. O Chico estava trancado numa salinha. Tinha uns três
companheiros com ele. Eu também estava lá. Resolvi chegar perto
e me escorar num canto, espiando. Brincávamos de clandestinidade. Era muito
engraçado, o Chico me chamava de Ricardo e eu a ele de Santos. Às
vezes a gente trocava os nomes em público. Lembrei da vez em que o Chico,
numa assembléia, não entendeu porque as pessoas ficaram confusas
quando ele se dirigiu ao Raimundão chamando-o de Palmeira. Percebi, naquele
momento, que tudo não passava de brincadeira. O sindicato de Xapuri funciona
movido por uma lógica que não sofre abalo. Nestes anos todos, nenhum
partido, ou fração de partido, conseguiu penetrar na verdadeira
couraça de barracão que de fato o sustenta, assim como a todo o
sindicalismo rural no Acre. Saí dali pulando no tempo e fui passear pelas
ruas de Xapuri com o Chico, mas era insuportável andar com ele. O Chico
era um verdadeiro pau-de-balseiro, sempre enganchava por onde ia. Todos o paravam
para que ele desse solução pra tudo. Orientava os doentes para procurar
as Irmãs, resolvia briga de vizinhos, de marido com mulher e dos companheiros
do Partido. Muitas vezes eu não sabia qual a diferença exata entre
um presidente de sindicato e um patrão. Patrão não vem de
pai? Voltei para 85. Naquele tempo ficamos muito juntos. Trabalhamos muito, rimos
muito e conversamos muito. Todos os dias. Ficávamos pra cima e pra baixo
num jipe velho, com os pneus carecas e a bateria amarrada com uma corda. Nós
gostávamos muito daquele carro velho. Acho que os "Chicos" estereotipados
destes típicos -g r i g o s - e c o l o g i s t a s - q u e -andaram-por-aí
não seriam capazes de ficar tão felizes pelo fato de receber, de
surpresa, um jipe velho para ajudar numa campanha eleitoral. Lembrei bem do jipe
naquele momento. Ele era realmente um charme. Tinha um tom verde, tão verde,
que nós o chamávamos de Hlulk. Era muito legal ver o Chico dormindo
no Hulk enquanto o Valdecir Nicácio pilotava na buraqueira. Morri de saudade
daquela cena. No final da campanha, para honrar dívidas do PT, o Hulk foi
entregue para o dono de uma gráfica. Ele nunca soube o valor que aquele
carro tinha. Acho que um pedaço da minha alma foi junto. O estádio
agora canta outra música, os anjos já não choram. Os colombianos
já esqueceram totalmente o Grêmio e o placar da derrota. Também
eu começo lentamente a voltar. Xapuri está longe, distantes estão
aqueles dias. Mas ainda dói, e muito, aquele outro dia, aquele sobre o
qual eu não comporei uma canção. O dia-noite, o clarão,
o susto do telefone. Quando o Guma me ligou chorando, eu já sabia o que
tinha acontecido. Eu só não sabia o que fazer. Acho que até
hoje eu ainda não sei.
Arnóbio Marques
é o Binho. Antes de ser Secretário Municipal de Educação
foi coordenador do Projeto Seringueiro.
*Arnóbio Marques é o Binho. Antes
de ser vice-governador do Estado do Acre, foi Secretário Municipal e
Estadual de Educação, e coordenador do "Projeto Seringueiro",
do CTA. **Publicado na Revista "n'ativa"
nº4 em dezembro de 1995
A memória da luta de Chico Mendes continua viva em cada ação que respeita a floresta e seus moradores e a cada semente plantada. Assim ele revive na cabeça da juventude que se preocupa com a qualidade de vida do planeta.
A semana Chico Mendes 2007 está integrada ao ano Chico Mendes, que em 2008 marca os 20 anos do seu assassinato. Durante o ano haverá diversos eventos.
Vamos continuar a luta para manter viva a memória do Chico! Clique aqui para a programação da semana Chico Mendes 2007 em Rio Branco, Xapuri e Brasiléia. (arquivo pdf)
Publicado por:
em Dec 07, 07 | 7:22 pm
30 de Mar , 2005
Medalha Chico Mendes de Resistência
Criada, em 1988, por iniciativa do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, a Medalha Chico Mendes de Resistência foi pensada quando o Exército, lembrando os vinte anos do golpe militar de 1964, homenageou com a Medalha do Pacificador, notórios elementos ligados ao aparato de repressão. Estas homenagens realizaram-se no DOI-CODI/RJ, local famoso pelas torturas e assassinatos ocorridos durante os chamados anos de chumbo.
>> ler noticia...
Publicado por:
em Mar 30, 05 | 12:31 pm
13 de Dec , 2004
Chico Mendes na melhor idade
Elson Martins
O líder seringueiro, sindicalista e ativista
ambiental Francisco Alves Mendes Filho,
o Chico Mendes, completaria 60 anos de
idade no próximo dia 15.
Foi assassinado, entretanto, aos 44,
em sua casa na pequena cidade
de Xapuri, no Acre, no dia 22 de
dezembro de 1988.
Sua morte deixou muita saudade,
indignação e pranto, mas repercutiu
em defesa da Amazônia
e dos povos da floresta.
No dia 15 de dezembro de 1944 nasceu em
um seringal de Xapuri, no Acre, uma criança
que quarenta anos depois teve seu nome
conhecido e reconhecido em todo
o planeta Terra.
Neste fim de ano de 2004, Francisco Alves
Mendes Filho, o CHICO MENDES,
completaria sua melhor idade...
Mas apagaram seus olhos, antes que
pudesse ver e festejar o bom resultado
da luta que liderou.
Antes de ir, porém, ele deixou escrita
uma bela mensagem para os jovens do
presente e do futuro.
A cidade de Xapuri reencontra-se com sua identidade e se transforma sem perder substância. Foi a idéia que passou às pessoas que a visitaram na semana passada, durante a programação dos 15 anos da morte do líder seringueiro Chico Mendes.
Leia a integra do artigo do Jornalista Elson Martins clicando no ícone “Ler Notícias”.
Lançamento da vinheta da Campanha Contra a Biopirataria
Foi lançada dia 16 de dezembro, no Teatro Hélio Melo em Rio Branco (AC) a vinheta da Campanha Contra a Biopirataria “Cupuaçu é Nosso”. O Evento fez parte da programação da Semana Chico Mendes e teve início às 19:00h com uma Mesa Redonda com tema “Diálogo dos Saberes: Ciência e Tradição na Floresta”.
A página da Internet da Agência Brasil ( www.radiobras.gov.br )
setor de "Especiais", disponibiliza diversas sonoras de entrevistas
realizadas com pessoas ligadas a Chico Mendes, que estão sendo apresentadas
nos programas Revista Amazônia e Sons da Amazônia, numa produção de Cleide
de Oliveira e condução de Eduardo Mamcasz, os dois da Rádio Nacional da
Amazônia.
A Prefeitura Municipal de Porto Alegre promove de 13 a 21 de dezembro, a Semana Chico Mendes. O evento ocorrerá em comemoração ao aniversário de doze anos do parque e lembrará os 15 anos sem Chico Mendes.
O Parque Chico Mendes está localizado na zona norte de Porto Alegre, Rua Irmão Ildelfonso Luis 240, entre os bairros Jardim Leopoldina e Chácara da Fumaça, ocupando uma área de 24,7 hectares. Foi inaugurado no dia 21 de dezembro de 1991, em referência à data da morte de Chico Mendes, ocorrida no dia 22 de dezembro de 1988.
O Comitê Chico Mendes e outras entidades promovem entre os dias 15 e 22 de dezembro a Semana Chico Mendes com eventos em Rio Branco e Xapuri, no Acre. Acompanhe a programação em notícias.
>> ler noticia...
Publicado por:
em Dec 05, 03 | 11:01 am
30 de Sep , 2003
Conferência Estadual do Meio Ambiente
Acontecerá nos próximos dias 13 e 14 de outubro, no Teatrão, em Rio Branco, a Conferência Estadual do Meio Ambiente, preparatória, inclusive com a escolha de delegados, para a Conferência Nacional do Meio Ambiente, que acontecerá no final de novembro, em Brasília.
Para o encontro que acontecerá em Rio Branco está prevista a vinda da Ministra Marina Silva e de alguns de seus assessores diretos.
A organização da Conferência está por conta do IBAMA/AC, onde podem ser obtidas maiores informações.