A história: no final dos
anos 80 a Comissão Pró índio do Acre (CPI) e o Centro dos
Trabalhadores da Amazônia (CTA) tinham um horário semanal na Rádio
Difusora e faziam um programa chamado "Rádio Floresta". Dirigido
às aldeias indígenas e seringais, o programa passava mensagens,
dava notícias e tocava música popular brasileira e acreana. Não
faltou repressão: a polícia federal suspeitava das mensagens transmitidas
em línguas indígenas (seriam códigos de guerrilha?). Num
dia qualquer de 1987 o líder indígena Siã Kaxinawa entrevistou
o líder seringueiro Chico Mendes, com quem fez amizade na articulação
da Aliança dos Povos da Floresta. Gravando a entrevista estava o Jorge
Nazaré, que sempre anda metido nessas coisas. Hoje Siã é
presidente da Associação dos Seringueiros Kaxinawas do Rio Jordão,
o Chico está no céu e o Jorge continua guardando a fita.
SIÃ
KAXINAUWA -Chico o que vocês estão vendo
dentro da sua organização sobre a reserva extrativista, a organização
do sindicato de Xapuri e esses conflitos que sempre vêm acontecendo Vocês
vieram sempre lutando em cima disso, manifestando. Por que que as coisas acontecem,
que nada, nada dá certo, e que os senhores no fundo estão sentindo.
Que vocês vão fazer?
CHICO
MENDES - Bom nós passamos uma fase, a fase inicial no processo
do início dessa luta dos seringueiros para defender a floresta, defender
sua posse, principalmente na década de 70, no momento em que a gente não
tinha muita coisa na cabeça, quase nada na cabeça, ninguém
tinha nenhuma visão de como a gente ia lutar para defender a floresta.
E durante muito tempo nós lutamos assim sem ter um rumo definido. Mas valeu
a pena essa luta porque nesse processo todo a gente foi amadurecendo e finalmente,
com a organização e o fortalecimento do sindicato de Xapuri, a gente
chegou até o ponto de se pensar na realização de um encontro
nacional de seringueiros. Isso foi realizado em 1985, com muito sucesso, e a partir
desse encontro nacional de seringueiros, foi criado o Conselho Nacional do Seringueiro,
que no meu modo de pensar foi o maior avanço da luta da história
do seringueiro, foi a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros.
A sua importância é muito mais importante que a partir daí
surgiu, na consciência dos trabalhadores seringueiros, a possibilidade de
se pensar em uma aliança com os verdadeiros donos dessas florestas que
são os companheiros índios, que fomos inimigos durante tanto tempo.
Com a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros, cresceu também
junto com sua organização essa consciência de que o índio
e o seringueiro não são inimigos. E hoje, por exemplo, apesar
das derrotas que nós temos sofrido, da pressão do grande latifúndio,
do governo que está aí, que não está do lado dos seringueiros
nem dos índios e dos trabalhadores, mas de um governo que se coloca ao
lado do latifúndio estrategicamente para tentar barrar nossas organizações,
mesmo assim hoje os seringueiros, os povos da floresta da Amazônia, eles
marcam um espaço muito importante, com essa proposta de aliança
dos povos da floresta e com a proposta de criação da reserva extrativista.
Eu acho que a reserva extrativista hoje ela acena como a maior bandeira de luta
dos últimos tempos dos povos da floresta, porque é através
da reserva extrativista que os seringueiros e os índios vão conquistar
a sua verdadeira liberdade, que para nós a reserva extrativista é
a reforma agrária do seringueiro, é a forma de se contrapor à
política violenta do latifúndio. Agora, por outro lado, na medida
em que a gente começa a se organizar para conquistar as primeiras reservas
extrativistas, os grandes fazendeiros se juntam e criam a UDR para lutar contra
a nossa organização. Por isso eu acho que hoje, é mais do
que nunca importante se fortalecer o movimento dos seringueiros e dos índios,
fortalecer os sindicatos que estão na sua grande maioria entregue aos "pelegos"
- mas eu acho que isso é questão de tempo. Nós temos hoje
que nos organizar muito mais. Nós conquistamos uma primeira reserva extrativista
aqui em Xapuri, que foi no seringal Cachoeira, quando antes as autoridades governamentais
não queriam de maneira alguma desapropriar o seringal Cachoeira, e os seringueiros
com sua organização "forçaram a barra" e o governo
foi obrigado a desapropriar. Isso foi a primeira e maior conquista dos seringueiros,
porque eu acho que a reserva extrativista tem um caráter muito mais positivo
na medida em que ela é conquistada através da força e da
organização dos seringueiros. Então eu acho que apesar das
inúmeras barreiras que nós temos pela frente, eu estou muito otimista
porque na medida em que também os movimentos dos seringueiros, vão
se fortalecendo através do sindicato, através do Conselho Nacional
dos Seringueiros, através de uma proposta de aliança com os índios,
que formam em um todo a luta em defesa dos povos da floresta, eu acho que nós
temos um futuro mais esperançoso hoje. Agora, esse futuro vai depender
muito da nossa coragem do nosso compromisso de lutar pela organização,
pela união dos povos da floresta e pelo fortalecimento de nossas entidades.
SIÃ KAXINAUWA - Você acha
que essa reserva extrativista vai trazer benefício para os povos que estão
aqui na terra, que são seringueiro, será que vão melhorar
suas condições?
CHICO
MENDES - Eu acho que a reserva extrativista não só
melhora as condições de vida dos seringueiros, dos índios
e todos os povos que moram na floresta, como também vai possibilitar melhores
condições de vida para o povo da cidade. Porque a proposta da reserva
extrativista é uma forma que os seringueiros e os índios defendem,
de conservar a Amazônia, evitando que seja devastada. Evitar que a Amazônia
se transforme em um deserto em proveito de uma meia dúzia de latifundiários
mas, por outro lado, defender a Amazônia, é torná-la uma região
economicamente viável, não só para nós que moramos
na floresta mas para os trabalhadores da cidade, para o país e para o mundo
inteiro, porque, a Amazônia, como se sabe, é uma região que
preocupa, quer dizer, ela interessa e é importante a toda a humanidade.
E nós queremos transformar ela em uma região economicamente viável.
Pois veja bem, há a borracha que ainda é a principal base econômica
de nossa região, a castanha, também que é um produto de tanta
importância. E hoje, por outro lado, não se deu prioridade a industrialização
de tantos outros produtos extrativistas que existem no meio da mata. Você,
se pensar no óleo do tucumã, no óleo do patoá, se
você pensar no açai, na bacaba, na copaíbia, e numa série
de outras espécies de árvores medicinais que existem na mata, e
que até hoje só o índio conhece, pois até hoje não
houve nenhuma pesquisa, por parte dos brancos, As universidades por exemplo, que
deviam ter um papel importante no trabalho da pesquisa na Amazônia, para
descobrir cada vez mais suas riquezas, não fizeram isso até hoje.
Nós temos muitas riquezas escondidas, Olha, o que está precisando
é que os governos levem isso a sério, é que o governo acredite
na proposta dos seringueiros, pois nós apostamos sem medo de errar que
no prazo de 10 anos, nós provaremos que a Amazônia será uma
região estrategicamente econômica com o melhoramento das condições
de vida dos seringueiros, com o estímulo ao aumento da produção
extrativista e a importância que isso vai trazer para toda a sociedade brasileira
e para o mundo.
SIÃ KAXINAUWA
- Por que é que vocês estão querendo reserva extrativista?
Até hoje os seringais, os patrões, não dão valor para
os seringueiros. Por que vocês estão querendo essa reserva extrativista?
CHICO MENDES - Mas é
exatamente o que nós queremos, a reserva extrativista, é exatamente
uma forma também de se libertar das garras dos patrões, além
de evitar que os latifundiários e os fazendeiros acabem com a nossa floresta.
E por outro lado a reserva extrativista vai possibilitar a liberdade do seringueiro
do julgo dos patrões, porque, por exemplo em Xapuri, nós hoje temos
seringueiros autônomos mas que ainda estão nas mãos de marreteiros.
Mas, mesmo assim, eles vendem para quem querem. Em outros lugares, em outros seringais,
como no Vale do Juruá e outros lugares da Amazônia, os seringueiros,
ainda continuam nas reservas extrativistas também, e isso vai melhorar
por que os seringueiros começam também a ganhar sua liberdade, e
eles ganhando a sua liberdade, eles saindo das garras dos patrões, com
certeza eles vão melhorar também suas condições de
vida. Então, eu acho que a reserva extrativista que nós defendemos
é a reforma agrária dos seringueiros é uma reforma agrária
que realmente vem garantir o nosso futuro e respeitar a nossa tradição,
nosso costume, a nossa maneira de viver nessa floresta.
A memória da luta de Chico Mendes continua viva em cada ação que respeita a floresta e seus moradores e a cada semente plantada. Assim ele revive na cabeça da juventude que se preocupa com a qualidade de vida do planeta.
A semana Chico Mendes 2007 está integrada ao ano Chico Mendes, que em 2008 marca os 20 anos do seu assassinato. Durante o ano haverá diversos eventos.
Vamos continuar a luta para manter viva a memória do Chico! Clique aqui para a programação da semana Chico Mendes 2007 em Rio Branco, Xapuri e Brasiléia. (arquivo pdf)
Publicado por:
em Dec 07, 07 | 7:22 pm
30 de Mar , 2005
Medalha Chico Mendes de Resistência
Criada, em 1988, por iniciativa do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, a Medalha Chico Mendes de Resistência foi pensada quando o Exército, lembrando os vinte anos do golpe militar de 1964, homenageou com a Medalha do Pacificador, notórios elementos ligados ao aparato de repressão. Estas homenagens realizaram-se no DOI-CODI/RJ, local famoso pelas torturas e assassinatos ocorridos durante os chamados anos de chumbo.
>> ler noticia...
Publicado por:
em Mar 30, 05 | 12:31 pm
13 de Dec , 2004
Chico Mendes na melhor idade
Elson Martins
O líder seringueiro, sindicalista e ativista
ambiental Francisco Alves Mendes Filho,
o Chico Mendes, completaria 60 anos de
idade no próximo dia 15.
Foi assassinado, entretanto, aos 44,
em sua casa na pequena cidade
de Xapuri, no Acre, no dia 22 de
dezembro de 1988.
Sua morte deixou muita saudade,
indignação e pranto, mas repercutiu
em defesa da Amazônia
e dos povos da floresta.
No dia 15 de dezembro de 1944 nasceu em
um seringal de Xapuri, no Acre, uma criança
que quarenta anos depois teve seu nome
conhecido e reconhecido em todo
o planeta Terra.
Neste fim de ano de 2004, Francisco Alves
Mendes Filho, o CHICO MENDES,
completaria sua melhor idade...
Mas apagaram seus olhos, antes que
pudesse ver e festejar o bom resultado
da luta que liderou.
Antes de ir, porém, ele deixou escrita
uma bela mensagem para os jovens do
presente e do futuro.
A cidade de Xapuri reencontra-se com sua identidade e se transforma sem perder substância. Foi a idéia que passou às pessoas que a visitaram na semana passada, durante a programação dos 15 anos da morte do líder seringueiro Chico Mendes.
Leia a integra do artigo do Jornalista Elson Martins clicando no ícone “Ler Notícias”.
Lançamento da vinheta da Campanha Contra a Biopirataria
Foi lançada dia 16 de dezembro, no Teatro Hélio Melo em Rio Branco (AC) a vinheta da Campanha Contra a Biopirataria “Cupuaçu é Nosso”. O Evento fez parte da programação da Semana Chico Mendes e teve início às 19:00h com uma Mesa Redonda com tema “Diálogo dos Saberes: Ciência e Tradição na Floresta”.
A página da Internet da Agência Brasil ( www.radiobras.gov.br )
setor de "Especiais", disponibiliza diversas sonoras de entrevistas
realizadas com pessoas ligadas a Chico Mendes, que estão sendo apresentadas
nos programas Revista Amazônia e Sons da Amazônia, numa produção de Cleide
de Oliveira e condução de Eduardo Mamcasz, os dois da Rádio Nacional da
Amazônia.
A Prefeitura Municipal de Porto Alegre promove de 13 a 21 de dezembro, a Semana Chico Mendes. O evento ocorrerá em comemoração ao aniversário de doze anos do parque e lembrará os 15 anos sem Chico Mendes.
O Parque Chico Mendes está localizado na zona norte de Porto Alegre, Rua Irmão Ildelfonso Luis 240, entre os bairros Jardim Leopoldina e Chácara da Fumaça, ocupando uma área de 24,7 hectares. Foi inaugurado no dia 21 de dezembro de 1991, em referência à data da morte de Chico Mendes, ocorrida no dia 22 de dezembro de 1988.
O Comitê Chico Mendes e outras entidades promovem entre os dias 15 e 22 de dezembro a Semana Chico Mendes com eventos em Rio Branco e Xapuri, no Acre. Acompanhe a programação em notícias.
>> ler noticia...
Publicado por:
em Dec 05, 03 | 11:01 am
30 de Sep , 2003
Conferência Estadual do Meio Ambiente
Acontecerá nos próximos dias 13 e 14 de outubro, no Teatrão, em Rio Branco, a Conferência Estadual do Meio Ambiente, preparatória, inclusive com a escolha de delegados, para a Conferência Nacional do Meio Ambiente, que acontecerá no final de novembro, em Brasília.
Para o encontro que acontecerá em Rio Branco está prevista a vinda da Ministra Marina Silva e de alguns de seus assessores diretos.
A organização da Conferência está por conta do IBAMA/AC, onde podem ser obtidas maiores informações.